Big Mouth volta ainda melhor em sua segunda temporada

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A pergunta na primeira temporada de Big Mouth era se havia chance de uma série animada com personagens adolescentes fazendo coisas de adolescentes ser voltada exclusivamente para adultos. A resposta teria de ser bem embasada e passar por temas complexos, mas assim de supetão deveria crer que sim, tratava-se de um programa voltado apenas para pessoas mais maduras que já entendessem sobre aquele universo altamente tortuoso.

É claro que em última instância falamos de uma situação em que meninos e meninas da idade de 13, 14, 15 anos poderão assistir sem nenhum problema à série, pois os conflitos ali inseridos podem estar acontecendo naquele mesmo momento com aquele ou aquela pessoa, mas é importante salientar que compreender de forma madura e psicologicamente tais tormentas em nossas vidas só pode ser possível depois de alguns anos na idade adulta.

A questão é que essa segunda temporada vai elevando o tom da qualidade das discussões em torno da adolescência, da puberdade e de seus monstros internos.

Big Mouth – Segunda Temporada (Netflix – 2018) continua com a produção acertada e criativa de Nick Kroll e Andrew Goldberg e o grupo de meninos e meninas ganha alguns membros novos em sua crescente chegada à puberdade e aos seus problemas causados pela irritabilidade, alterações hormonais e diferenciações físicas. Aliás, o constrangimento, o medo e a vergonha ganham destaque nessa nova temporada com a entrada do Mago da Vergonha que promove alguns momentos hilários, mas também desconfortantes.

O time de dubladores continua ótimo com os próprios criadores fazendo parte ao lado de John Mulaney, Maya Rudolph, Jason Mantzoukas, Jordan Peele, Fred Armisen e Jenny Slate.

Além disso, os temas abordados vão além da masturbação masculina e da chegada do período fértil para as meninas: há abordagens a respeito de drogas, de diversidade e aceitação, discussão de gênero e sexualidade na adolescência (parem com essa merda de  expressão “ideologia de gênero” que não existe), misoginia, sororidade, além da complicada relação entre os adolescentes e os adultos.

Mas é difícil imaginar que a série seria tão boa se não tivesse a presença quase mágica do Treinador Steve (dublado por Nick Kroll). A inocência e ingenuidade do professor de educação física da escola dos meninos é tão hilário e ao mesmo tempo cativante que chega a ser comovente. O episódio em que ele perde a virgindade devia concorrer a algum prêmio de melhor qualquer coisa neste ano.

Uma rápida maratona consegue fazer com que você devore os dez capítulos em poucas horas e isso não será nenhuma tarefa difícil. Até porque o fato de que existe uma correlação entre um episódio e o próximo faz com que a curiosidade não te deixe abandonar o projeto facilmente.

Além disso, é possível já comemorar, pois a Netflix confirmou a renovação para a temporada três ano que vem.

Em tempos em que há uma guinada ao reacionarismo no mundo e, principalmente no Brasil, será possível ouvir muitas críticas aos temas debatidos pelo programa, mas não tenham dúvida: dificilmente será visto em qualquer lugar da televisão ou de qualquer outra mídia uma obra artística que fale de maneira tão fácil e objetiva e dentro de um formato tão simples quanto é a animação quanto o que é realizado por Big Mouth.

Portanto, assista antes que as fogueiras bolsonaristas venham censurar esta série que, se não foi feita (especificamente) para adolescentes, aborda este universo exemplarmente.

 

 

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Segunda temporada de The Sinner continua apostando na imprevisibilidade

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Um ano atrás fomos confrontados aqui no Brasil com a estreia de uma série que marcou não só pela história, mas também pela capacidade de surpreender a cada capítulo com novas pistas (algumas falsas) sobre um crime que parecia ter sido solucionado logo nas primeiras cenas.

O show da USA em questão (que depois foi apresentado pela Netflix como sendo sua atração original) era The Sinner e trazia como sua estrela principal a atriz Jessica Biel.

Quando o final nos arrebatou foi logo questionado se haveria uma segunda temporada, mas o temor era grande de que se estragasse uma boa trama com algo que já havia sido altamente mastigado. Além disso, o que se contaria após toda o mistério ter sido desvendado ao final dos episódios.

Eis que alguém da produção teve a brilhante ideia de transformar a série numa espécie de antologia partindo apenas da mesma premissa (um crime aparentemente fácil de se resolver) para contar uma história totalmente diferente.

No que diz respeito ao corpo do roteiro somente a continuidade da participação do detetive Ambrose e do tema da religião (ou do fanatismo religioso) como pano de fundo para algo que vai muito além.

E não é que deu muito certo? Com atuações magníficas de vários de seus protagonistas e coadjuvantes (destaques para Carrie Coon e o garotinho Elisha Henig e para a construção cada vez mais bem feita de Bill Pulman) a série consegue cativar pela sua capacidade de conteúdo a cada cena sem enrolar o espectador.

 

Bradford Winters continua como showrunner e Jessica Biel, apesar de não mais aparecer na série, continua como produtora. A direção se divide entre vários realizadores, porém, isso não é algo que atrapalhe a concisão do projeto.

O “sinner” desta vez é um garoto de 13 anos que aparentemente matou os pais (isso não é spoiler, está no próprio trailer) e o crime ocorre na cidade onde o detetive da primeira temporada nasceu e viveu seus anos de infância e primeiro período adolescente.

A questão é que há muito mais por trás tanto do assassinato em si, quanto do passado de Ambrose, da detetive que a chama para ajuda-lo no caso e de outros personagens que vão surgindo (e surpreendendo) a cada minuto que se passa.

Logo no primeiro capítulo já temos um plot twist imenso e isso é só o começo.

Portanto, The Sinner é novamente nesta temporada uma série pesada que deve ser assistida aos poucos e deve ser degustada de maneira a não só entender cada passo que se dá no roteiro, mas também as nuances do relacionamento de todos e das suas personalidades e temperamentos.

 

E pensando na estrutura atual da televisão e do cinema isso é muito.

 

Estamos em tempos em que somente o que se vê são explosões, cortes rápidos e ação frenética para esconder as falhas na escrita de vários projetos e The Sinner tem qualidade nesse sentido para estar bem acima da média.

 

 


 

A segunda temporada de Making a Murderer já está entre nós

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A segunda temporada da série da Netflix Making a Murderer já foi disponibilizada no canal de streaming com todos os dez episódios podendo ser assistidos em sequência.

Dona de uma audiência expressiva, a primeira temporada foi lançada no final de 2015 e acabou com o espírito natalino de muita gente naquela época (este que vos escreve, inclusive).

A segunda parte da atividade dirigida pela dupla Laura Ricciard e Moira Demos dá a impressão de querer fazer o mesmo contigo desde o início do primeiro capítulo. Já terminei o segundo e agora parece que ficará o misto entre o desespero para terminar logo e a angústia com tanta coisa negativa passando pela sua frente que outro sentimento, o de tentar mastigar pausadamente cada bofetada que a série te dá, faça com que você não queira ver tudo isso de uma só vez.

Making a Murderer segue a trilha do caso envolvendo as prisões de Steven Avery em duas ocasiões diferentes e todo o processo pelo qual ele passou nesse ínterim, primeiro, por ter sido descoberto que não era o criminoso da primeira vez que foi acusado e encarcerado e, segundo, do crime pelo qual ele e seu sobrinho Brendan Dassey foram presos e que, agora, tentam provar sua inocência.

Seria mais uma série sobre crimes famosos se não fosse o fato de que nos dois processos movidos pela promotoria pública de Manitowoc, Wisconsin, há inúmeras inconsistências (para não falar, mentiras) e reviravoltas que fizeram até um número gigantesco de pessoas pedir à época do lançamento da primeira temporada do programa a concessão da anistia por parte do então presidente Barack Obama.

 

É bom que se diga também que até aqui essa temporada também faz um trabalho de metalinguagem mostrando muito daquilo que mudou por conta da ação e da reação das pessoas depois da exibição da primeira temporada.

 

Portanto, assista a esta segunda temporada da série e sinta mais de perto como o mundo pode ser nojento e as pessoas, mais escrotas ainda.

 


 

 


 

Dica de filme: “Negação” é possibilidade de entender o que está em jogo no Brasil atual

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Um ponto-chave no desenrolar da trama de “Negação” (Denial – 2016), em exibição na HBO e HBO GO, é quase um anticlímax. O juiz do caso pergunta ao personagem Richard Rampaton (Tom Wilkinson), advogado de defesa da ré Deborah Lipstadt (Rachel Weiss) se poderia o historiador e negacionista David Irving (Timothy Spall) ser um negacionista honestamente antissemita que acredita naquilo que diz. A resposta do advogado é de que algo do tipo: sim, poderia, mas no caso em questão ele mente deliberadamente, mesmo sabendo que aquilo está bem longe da realidade somente para que haja uma reafirmação de suas convicções absurdas.

Este é um ponto nevrálgico do filme de Mick Jackson: estamos diante de um julgamento que poderia ser considerado surreal por muitos, mas que acaba por acontecer porque o historiador e biógrafo de Hitler moveu uma ação contra a também historiadora americana pelo fato de ela afirmar em livros e palestras suas que o homem é um negacionista do Holocausto, algo que teria feito o primeiro perder oportunidades profissionais em sua carreira.

Portanto, partimos do ponto de vista do acusador, pois ele está afirmando coisas extremamente odientas, mas acaba por tentar provar que tinha o direito dessa liberdade de expressão.

Posteriormente a isso, nos focamos na defesa de Deborah que, inicialmente, queria depor e colocar sobreviventes do Holocausto para dar seu testemunho e acabar com a premissa que David defende, pois este salienta de que não há provas de que milhões e milhões de pessoas teriam morrido durante a segunda guerra mundial nos campos de concentração.

Uma boa parte do filme é consumida por conversas da equipe de defesa de Deborah que teve de se sujeitar a participar do julgamento como ré na Inglaterra, já que a solicitação do inglês partiu de lá quando um dos livros de Deborah foi lançado em solo britânico. Mas também percebe-se no caminhar do filme que os advogados preferem que não haja embate direto nem da americana com o negacionista nem de judeus com ele.

Fica aparente no primeiro instante que se trata de uma análise fria deles, mas comprova-se posteriormente que sua estratégia tinha não só o viés de ganhar a ação, mas também de não expor Deborah e, principalmente os judeus sobreviventes às piadas antissemitas de David.

Todo o trajeto inicial da defesa, porém, parece que vai ser jogado por terra, quando a pergunta lá do início do texto é feita pelo juiz ao principal advogado de defesa.

Aqui é que entra a comparação com o momento atual vivido por nós no Brasil.

Se numa sociedade como a europeia que viveu tempos terríveis como o fascismo, o nazismo e as duas grandes guerras do início até a metade do século passado e que depois teve ação exemplar para lutar contra esse tipo de pensamento em seus cidadãos que vieram depois ainda vive com arroubos de loucura como a que suscitou essa briga judicial em que um piadista politicamente incorreto que adorava falar mal de negros, subjugar o papel das mulheres nos meios sociais e tem desprezo pela ciência da qual ele mesmo vive o que dirá, portanto, do país que não promoveu ruptura nenhuma com seu passado terrível de tempos de ditadura?

Veja bem, vivemos durante 21 anos um período em que pessoas foram torturadas, perseguidas, mortas e escondidos seus corpos e a transição para a volta democrática ocorreu do modo mais pacífico e silencioso possível depois que as forças militares engendraram acordos para que a anistia fosse realizada sem nenhum critério jurídico passível de punição.

Isso fez com que não houvesse debate em torno do julgamento de gente que se envolveu com atividades escusas e que não teve seus nomes colocados em análise tanto pelo crivo popular, quanto pelo crivo jurídico e midiático. Saíram literalmente do governo para que voltassem tranquilamente para suas casas viver da aposentadoria. Até hoje há pessoas desaparecidas que não puderam sequer ser enterradas pela família.

Com tal processo de mudança sem nenhum impacto crítico na mudança de governo da ditadura para a volta do povo ao poder só bastaram algumas primaveras para que se ouvissem aqui e ali um “na ditadura que era bom”, “naquele tempo não havia inflação”, “na ditadura sim que havia segurança”.

Lembre-se que isso não se dá somente pela distância histórica, mas também pela falta de debate sobre aqueles anos de chumbo. Isso fez com que aproveitadores e espertalhões se apossassem do tal discurso do “antes que era bom” para aproveitar esse nicho descontente com “tudo o que está aí”.

Bolsonaro, o candidato líder das pesquisas e favorito a ganhar o pleito domingo que vem, cansou de utilizar esse discurso em programas televisivos e foi eleito várias vezes para a Câmara Federal simplesmente por repetir sua baboseira pró-militarismo durante anos. Conforme o tempo foi passando incluiu também na sua fala jocosa elementos de preconceito, antissemitismo e discriminação contra as mulheres, os negros e a comunidade LGBT.

Quando sua popularidade atingiu um nível nacional gritante e sua capacidade de discutir ideias para o Brasil foi afrontada ele se viu na necessidade de atirar em novos alvos: notadamente o PT, a corrupção e a insegurança pública.

Não haveria nenhum problema se realmente seu discurso tivesse tido um acréscimo de criticidade e pudesse falar contra problemas reais da roubalheira de parte do governo petista e da violência que assola o país. A questão neste ponto é que nunca se quis fazer uma análise profunda acerca dessas situações: o que ele sempre quis foi causar, como aquela pessoa chata que sempre é do contra, mas nunca dá solução.

E se ainda assim tivesse ficado nisso só sua mitologia, meio que para se autoafirmar recrudesceu mais ainda o foco em inimigos imaginários e principalmente na necessidade de vestir uma carapuça de fiscal dos direitos alheios e elegeu todas as minorias como antagonistas da nação. E é neste ponto que ficou deveras perigoso até para um lugar tão conservador quanto o Brasil.

Se já tínhamos um nível de violência gigante contra minorias nesta parte do globo foi nos últimos meses que o negócio descambou para a agressão gratuita mais pesada e física, e nas últimas semanas para assassinatos com requintes cruéis de antissemitismo e discriminação. Mulheres, pessoas ligadas a movimentos sociais, negros, gays, lésbicas, trans e até líderes religiosos (que não aceitam a bandeira de extrema direita) estão sendo atacados à luz do dia e a polícia e a justiça parecem fazer vista grossa.

A eleição nem ocorreu, a vitória do candidato que defende tais ideias também não aconteceu, mas já se percebe que seus seguidores babam atrás de sangue derramado de qualquer um que eles julguem seus adversários.

É importante que se diga que num momento assim é necessário a união de quem não compactua com tais práticas e ideologia semelhante e que qualquer governo democrático (de qualquer esfera ou espectro político) é mais indicado do que o fascismo institucionalizado como o deseja essa turma. Sendo assim, ainda há margem para um virada.

Porém, a barbárie de uma parcela significativa da população nacional já foi identificada e teremos que saber conviver e desenvolver meios de lutar contra ela mesmo que tal vitória da democracia ainda ocorra domingo.

No filme (e na vida real) que provocou a escrita deste artigo o final é coerente com a luta que a Europa teve contra as forças maléficas do nazismo e fascismo e Deborah Lipstadt ganha a ação conta David Irving o jogando ao ostracismo, que é onde pessoas que defendem o indefensável deveriam estar sempre. Mas e aqui, o que vamos fazer a respeito?

 

 

 

 

“A maldição da Residência Hill” é ótima, mas ela pode te enganar

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Um sentimento que tem tomado uma galera que curte séries e filmes sejam estes do cinema ou não é de que alguns trailers tem enganado demais aos espectadores. Não, não digo em relação à produção ruim que teve um teaser ou trailer bem editado que conseguiu esconder os defeitos do longa completo. Um caso bem conhecido recente é “Esquadrão Suicida” (2016) que tinha um fabuloso chama-trouxa no seu comercial exibido meses antes de seu lançamento que enganou a todos que foram assistir ao filme e saíram revoltados da sessão.

A minha constatação na qual procuro lançar luz aqui é com aquele tipo de série ou filme que tem um trailer que parece vender uma coisa totalmente diferente do que de fato o é.  E quem tem sofrido demais com isso são os fãs do gênero de terror.

Dois exemplos recentes são “A Bruxa” (2015) e “Hereditário” (2018) que pareciam ser algo que se mostrou muito fora do comum posteriormente. Ambos são, de fato, alguns dos melhores filmes da área, mas são tudo menos o que se assemelhava ao trailer de divulgação anterior. Muitos críticos notaram isso e ainda puderam nos avisar com certa rapidez, mas nem todo mundo acompanha assiduamente esse nicho informativo para ficar esperto e não ser pego de surpresa.

Essa é a sensação exata de quem assistiu ao trailer de “A Maldição da Residência Hill” (2018), série original Netflix de autoria do produtor, diretor e roteirista Mike Flanagan que é levemente inspirada (preste atenção à palavra usada) no livro “The Haunting of Hill House” (1959) de Shirley Jackson.

A questão essencial que nos leva ao pensamento de que fomos enganados pelo trailer exibido pela empresa de streaming norte-americana é que lá parecia que estaríamos em frente a uma produção de terror físico cheio de jumpscares que nos aterrorizaria do modo mais prático e usual ao qual estamos super acostumados.

A parte positiva a respeito disso: a série é muito mais do que isso. E bota “mais do que isso”, pois o programa é um terror psicológico que age em dois momentos da história de uma família (os Crain): a primeira situação em 1992 quando os cinco irmãos Steve, Shirleu, Theodora, Luke e Eleonor junto com a mãe Olivia e o pai Hugh se mudam para a residência título da trama com o intuito do patriarca engenheiro (e faz tudo) resolver os problemas do velho casarão que adquiriu por uma módica quantia para que a venda proporcione boa grana a fim de construir a tal casa dos sonhos que a mãe arquiteta está planejando há algum tempo. Neste pequeno tempo de moradia fatos estranhos e traumatizantes vão mexer com a vida de todos ali; a segunda situação é 26 anos depois (o período atual) na qual todos têm de lidar com os fantasmas (no sentido literal e figurado) do passado.

Se colocarmos em prática nomenclaturas exatas do manual de gêneros cinematográficos lidamos portanto com um terror psicológico que se emenda com um drama familiar que por breves momentos pode descambar para um horror mais físico ou de sustos fáceis. Essa mesma cartilha dirá que a produção homenageia clássicos como “Poltergeist” (1982), “Terror em Amityville” (1979), “Os Outros” (2001) e “O Iluminado” (1980), além de claras influências da primeira temporada de American Horror Story (2011), que recebeu a alcunha de Murder House.

O mais importante dessa análise sobre o que estamos assistindo é que tudo é feito com muito esmero e capricho e que a edição de som é fantástica, a edição de imagens é bem inteligente e sem pressa, a fotografia é perfeita no que pretende mexer com a cabeça do público que escolheu participar dessa viagem entre o passado e o presente, as cores, sombras e luzes que são importantes para mostrar a desgraceira que essa família foi obrigada a conviver enquanto o tempo passa para eles e para nós.

O ritmo da série é lenta o suficiente para que as personagens sejam bem trabalhadas e cada um dos primeiros seis capítulos é focado num membro da família enquanto uma sétima personagem permeia a todos e funciona como fio condutor de toda a loucura que vai culminar (ou já culminou) quando descobrimos o que de fato aconteceu para todos terem a garganta engasgada eternamente e não conseguirem seguir tranquilamente suas vidas.

Enfim, trata-se de uma série que vai te enganar bastante e vai te proporcionar momentos de tensão que vão se alongando conforme você vai se afeiçoando às pessoas que ali estão nos dez capítulos da trama.

Pontos mais do que positivos à atuação de todos e, em especial, aos atores e atrizes mirins que fazem entregam verossimilhança à obra. Outro destaque é com relação aos planos-sequência do 7º episódio (talvez o melhor dessa temporada) que provocam certo frescor ao ritmo da produção e quem está assistindo é levado a um novo nível de satisfação cinematográfica. Por fim, é essencial advertir a todos que já leram o livro homônimo de 1959 de que se trata mesmo de uma leve inspiração na obra literária já que de base mesmo dali só mesmo temos o nome da residência (que no livro a palavra Hill se refere a uma colina enquanto aqui estamos falando da família Hill, portanto um sobrenome), o casal Dudley (mesmo que tenham muitas diferenças do livro para a série), e que os Crain no livro, na verdade, eram liderados por um homem excêntrico que teria construído a casa enquanto que na série o patriarca da família fez o que já explicamos lá no início. Outra situação de diferenciação é que personagens como Nelly (ou Eleonor) e Theo têm funções e motivações totalmente diferentes de uma obra para a outra.

 

Portanto, “A Maldição da Residência Hill” é uma das melhores séries de terror já produzidas, mas que você vai ser enganado, ah isso vai, sem dúvida.

 


 

 


 

 

1ª Temporada de Succession termina com fôlego para a próxima

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O início de Succession dava a pinta de demonstrar um seriado fechado com começo, meio e fim acontecendo nestes dez capítulos que seriam finalizados ontem pela HBO num trabalho de excelência de Jesse Armstrong.

Mas o que ninguém esperava era que o desenvolvimento dos personagens ultrapassasse o clichê habitual de uma família rica que luta por poder tal qual já aconteceu tantas vezes. Uma espécie de Dallas moderno.

Ok, o mote do programa é este. Mas além da figura de Logan Roy (Brian Cox) claramente inspirado em inúmeros barões da mídia conservadora americana (assim como poderia ser comparado com um certo senhor Marinho por esses lados de cá) e da sua arrogância acumulada com perspicácia e malandragem no mundo corporativo/político também havia muito o que contar sobre os seus filhos.

Sim, em muitas de suas características todos são arquétipos de uma forma de ser já apresentada na TV e no cinema, mas quando aprofundados não se via apenas sua vida mesquinha, cheia de empáfia e vazia. Há muitas camadas que tanto Kendall Roy (Jeremy Armstrong) quanto Shiv Roy (Sarah Snook), Connor Roy (Alan Ruck) e Roman Roy (Kieran Culkin) puderam tatuar em tela para que o telespectador analisasse de quem gostava menos ou odiava mais.

Certo, há os coadjuvantes de dentro da família como Greg (Nicholas Braun), Marcia (Hiam Abbass) e Tom (Matthew McFadyen) e um destaque especial para a participação curtinha de James Cromwell vivendo Ewan Roy e não se pode menosprezar todo o restante do elenco de apoio, mas o roteiro vai e vem e sempre pousa sobre os ombros da aura perturbadora de Logan e da sombra que abate sobre seus herdeiros.

A edição também é ótima e se alinha com a decisão de focalizar as cenas por meio de uma câmera ora tremida, ora em zoom e looks que vão e vêm para tomar conta de alguns segundos dos traços do rosto do personagem ou da forma como está falando.

É certo que houve em alguns momentos da temporada uma lentidão exagerada para chegar ao próximo passo, algo que se avizinhava de maneira quase óbvia, mas que se prejudicava por enrolações desnecessárias, porém isso ainda não foi suficiente para tirar o ritmo bom do show.

E nos últimos três capítulos aconteceu o mais relevante, mas tudo isso só poderia ser importado por quem assiste se de fato houvesse uma conexão com a história e com os protagonistas desde as primeiras cenas lá no início.

Dessa forma, a entrada de vez de Shiv no mais alto grau da política estadunidense (e seus podres também), a demonstração do quão ridículo é Roman, o desvendamento da figura patética que é Connor e a insegurança frente a tudo que tem a ver com o pai no que diz respeito a Kendhal tiveram seu ápice agora em conjunto com a prepotência que caracteriza a todos eles.

Afinal de contas, dificilmente numa série que busca mostrar como é o mundo corporativo lá no topo da cadeia haveria lugar para pessoas que se importam com o próximo ou com a moral e a ética.

E nesse sentido uma segunda temporada se faz necessária para termos acesso a mais meandros deste mundo e de suas entranhas cada vez mais nojentas e inescrupulosas. Um último destaque para a qualidade da trilha sonora em geral e a abertura do programa (apesar do uso excessivo de seu tema na maioria dos episódios).

 

 

 


 

Sharp Objects é obra refinada em meio a temas profundos

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Ainda estamos no terceiro episódio, mas diante do que já se viu Sharp Objects (HBO – Todo Domingo às 22 horas) é pedaço do cinema de arte feito para a TV.

Minissérie criada por Marti Noxon e produzida pela própria protagonista do programa, Amy Adams, a história é toda baseada no livro de Gillian Flynn que, diriam os seus leitores, seria quase impossível de ser adaptada para a tela pequena ou grande por conta de suas variáveis entre fatos, pensamentos e divagações da personagem Camille Preaker que dificultam qualquer forma de transferência para a imagem.

Mas o diretor Jean-Marc Vallée (que já tinha dado show em Big Little Lies) está irrepreensível até aqui e manda muito bem na direção e na edição da produção. Com ritmo lento e tenso por todo o caminho que percorre na pequena cidade de Wind Gap a câmera de Vallée te atordoa com cortes curtos, mas não rápidos, de cenas que transpassam as reminiscências de Camille enquanto viaja metaforicamente quando acorda ou quando dirige ouvindo clássicos do rock.

A trama se inicia quando o chefe de redação da protagonista Frank Curry (Miguel Sandoval) solicita à jornalista Camille (Amy Adams) que vá até sua cidade natal investigar o assassinato de uma menina e o desaparecimento de outra em situações misteriosas.

Ao chegar na cidade cheia de pessoas esquisitas é que percebemos que a protagonista tem problemas sérios com seu passado e, principalmente, sua mãe Adora Crellin (Patricia Clarkson), uma das figuronas do local.

Por lá sabemos que há rusgas mal resolvidas entre mãe e filha, mas também se pode retirar dessa relação que para a filha ficou a ansiedade, a dificuldade em se impor num relacionamento (qualquer que seja ele), o alcoolismo e algo a ver com o título do programa (objetos cortantes, em tradução livre).

E neste ponto, também se pode concluir (pelo menos por enquanto) que Adora pratica algo que podemos chamar de chantagem emocional crônica e que funciona muito bem com a filha mais velha e mais ou menos com a filha adolescente Amma Crellin (Eliza Scanlen) enquanto a cria como se esta fosse uma criança.

Há pontos que ainda não estão muito claros, mas sabe-se que a polícia local configurada em tela pela figura de seu xerife Vickery (Matt Craven) não quer saber de incriminar ninguém da localidade e que o policial de fora Richard Willis (Chris Messina) chamado para investigar mais a fundo os crimes tem outro pensamento.

Há ainda o padrasto de Camille, Alan Crellin (Henry Czerny) que pode guardar algum segredo importante, o pai da menina morta que é bem esquisito, o irmão (e sua namorada) da menina desaparecida que pode ser um personagem interessante e várias e vários conhecidos de Camille que aparecem e desaparecem deixando sempre um rastro de estranheza no ar.

De toda forma, o programa que terá oito episódios no total, é uma obra intrigante em seu roteiro, delirante e densa em sua edição, poderosa em toda a direção de arte e nas paletas pesadas para demonstrar passado e presente tanto da protagonista quanto de seus demônios internos, além de ser inteligente na abordagem de temas pesados como depressão, ansiedade, autoflagelo e outras coisas que ainda deveremos ver por aí.

As atuações de Amy Adams e de Patricia Clarkson são deslumbrantes com qualidade passível de premiação e o elenco de apoio é sensacional e segura bem a onda, mas há de se falar de Sophia Lillis que vive Camille em flashbacks de sua adolescência e o poder em cena que tem Eliza Scanlen que flutua entre a sensualidade juvenil e a irritação de sua petulância pelo mesmo motivo etário.

Sharp Objects, portanto, parece ser o show da HBO que provocará o arrastão que Big Little Lies realizou ano passado entre o sucesso de público, a empolgação da crítica e a merecida maratona de premiações ao final do ano, mas acaba por se parecer mais no sentido dos temas abordados com outra série magnífica de 2017, a interessante The Sinner, que tinha como protagonista Jessica Biel.

 

Independente disso, o que é importante para a cultura pop atual e para a luta por direitos femininos é que o tema ligado a mulheres e o protagonismo delas tem sido bem mais recorrente nos últimos tempos junto com a qualidade com a qual é abordado.

Mas não se engane, o programa ainda terá muitas reviravoltas e seu desfecho promete chocar quem chegou ali meio desavisado. Tente curtir aos poucos, até porque sua forma de ser filmada tem de ser apreciada devagar e de maneira moderada para que seu clima pesado não te machuque tanto quanto os objetos cortantes do título.