Por que esta juventude de hoje é uma geração bunda-mole

Primeiro era uma pergunta, posteriormente se tornou uma afirmação: o fato é que a frase acima começou a matutar em minha cabeça desde a semana passada mais fortemente.

Na verdade, já faz algum tempo que eu tinha esse pensamento inculcando minha mente, mas os protestos de junho de 2013 deram ânimo para que eu pudesse perceber que essa faísca na consciência era um erro.

Ledo engano!

O fato é que tais ações populares terminara sem nenhum efeito prático e com uma série de manifestações pacíficas que o máximo que conseguiam era fazer um monte de servidores aplicados do Estado (a famigerada polícia brasileira) descerem o cacete em jovens pacatos que ainda pediam paz, amor e um pouco mais de nutella no pão.

Infelizmente, parece que essa fúria inicial de uma parcela considerável da juventude nacional teve um resultado reverso na sede do povo por um país melhor.

Tivemos no ano passado uma eleição cheia de picaretagem (de lado a lado, diga-se) em que não se podia olhar para nenhum lado que só se enxergava podre e conservadorismo chegando a vários ápices. Senão, vejamos:

* o uso político da morte de um dos candidatos pela candidata que herdou a vaga;

* um candidato que possui um problema sério de vício sendo mostrado em claro momento de embriaguez e ninguém parece ter notado seu despreparo para qualquer ocupação de cargo político administrativo;

* uma presidente-candidata que usou e abusou da máquina do Estado ao ponto de sotar notas apócrifas acusando os outros proponentes de retirada de benefícios que já existem;

* uma revista fazendo clara propaganda política para um candidato chegando ao cúmulo de mentir sobre uma acusação que recaía sobre ela;

* etc, etc, etc…

Ora, num cenário horripilante como esse não houve uma terceira, quarta, quinta via política competente para realizar uma oposição de fato a esses absurdos e nem para denunciar tais fatos. Além disso, faltou força para movimentos sociais que poderiam ter estimulado mais o voto nulo ou a abstenção para boicotar a eleição que já estava viciada (ops, sorry pelo trocadilho).

Ok, o voto nulo não resolve nada na prática, mas funciona como um termômetro da insatisfação pública em relação à classe política em geral.

E a galera jovem realmente se calou nessa. Pelo contrário: houve uma onda de declarações xenófobas e preconceituosas após as eleições principalmente nas redes sociais (que obviamente são mais usadas pelo nicho jovem).

Mas não é somente no quesito “política” que a juventude vive um marasmo de atitude e reflexão sobre o seu contexto histórico. Tanto no cinema, na literatura e no cinema já tem algum tempo que há muita “bunda-molice” nas escolhas dos jovens para lutar contra o conservadorismo e o stablishment.

Imagens das manifestações de junho de 2013


Cinema: 

Hollywood hoje é comandada por grandes franquias, histórias adaptadas dos quadrinhos ou dos games e brinquedos. Tudo bem, há cinema independente e cinema adulto que ainda tem seu mercado, mas o cinema bom de outros países e a produção alternativa que antes era muito apreciada pelo público jovem hoje mofa à espera de alguém nos cineclubes das grandes cidades.

Um Quentin Tarantino ou um Martin Scorsese nunca poderiam iniciar uma carreira nos dias atuais com base na curiosidade da molecada. Kubrick nunca faria “Laranja Mecânica”, pois o que todos querem é ver a trigésima sequência de “Velozes e Furiosos” ou os efeitos especiais de uma draga como “Transformers”.

Pior que isso: mesmo gente já bem estabelecida e talentosa tem de se render a um “Harry Potter” ou a um “Jogos Vorazes”.

Nada contra tais filmes, mas eles servem apenas para entreter e seus cortes rápidos e roteiros rasos não chegam aos pés da complexidade de um “Perdidos na Noite” ou de um “Trainspotting” que falavam ao pé do ouvido da juventude de suas épocas, mas não a fazia de idiota.

Dessa forma, mesmo com bons diretores nos dias atuais os roteiros de ótima qualidade nem chegam ao corredor dos grandes estúdios e o jeito é fazer a coisa de forma independente. Daí é que o povo bunda-mole não vai em frente, preferindo sempre seguir os caminhos que estão dando certo. Ninguém quer sofrer para evoluir, quer só as coisas mais fáceis e o mais do mesmo acaba sendo consagrado.

Trailer Trainspotting (1996)


Literatura:

Eu sei que há gente ligada a mim e até um pessoal muito inteligente e de mente bastante arejada que adora bobagens como “Harry Potter”, “Divergente” ou “Jogos Vorazes” (com o grande asterisco de que os dois últimos ainda possuem uma crítica social e política bem elaborada), mas a questão é que a literatura feita para a juventude hoje em dia é muito molenga.

Mesmo aquela literatura que não era jovem antigamente poderia ser devorada pela geração mais jovem, pois eles se apropriavam de seu texto, seus temas, sua forma de mostrar o mundo.

Portanto, obras como “Admirável Mundo Novo” (Aldoux Huxley), “On the Road” (Jack Kerouac), “Revolução dos Bichos” (George Orwell), “Os Irmãos Karamazov” (Dostoiévski) e “A Metamorfose” (Franz Kafka) teriam poucas chances num mercado que dá mais valor a coisas como as adaptações do game “Assassin’s Creed”.

Estes livros eram sugados pelos meninos e meninas com 13,14 anos no tempo em que foram publicados, pois o assunto do qual  falavam diziam respeito às suas vidas, ou causavam curiosidade por algo que queriam estar mais a par. Alguns até eram proibidos para menores.

Até a literatura fantástica era melhor aproveitada pelo público jovem, pois “Cem Anos de Solidão” (Gabriel Garcia Marquez), “Senhor dos Anéis” (J.R.R. Tolkien), “Alice no País das Maravilhas” (Lewis Carrol) ou qualquer livro de Vitor Hugo e Júlio Verne eram inteligentes a toda prova e sabiam como causar espanto, suspense, empolgação e excitação sem que buscassem soluções rápidas para suas tramas. Algumas nem eram para o público jovem, mas sua complexidade (caso de Cem anos de Solidão) ainda provocava  a mente jovial.

Mesmo na literatura policial, de terror e de suspense que sempre foi povoada por gente perspicaz como Arthur Conan Doyle (Sherlock Holmes), Ian Fleming (James Bond), Edgar Allan Poe, Bram Stocker e Mary Shelley lidos incessantemente pela juventude ao longo do tempo hoje tem seus melhores escritores com mais de cinquenta anos, no mínimo.

E ainda assim, gente como Stephen King, Elmore Leonard (morto em 2013), James Ellroy e Cormac McCarthy não seriam reconhecidos na rua por nenhum dos moleques fãs de J.K. Rowlling nem qualquer livro deles deve ter sido folheado por alguma histérica aficionada por E.L. James. Obras profundas como “O Iluminado”, “Ponche de Rum”, “L.A. Confidential” ou “Onde os Fracos não têm Vez” teriam valia incondicional para essa geração de jovens que quer tudo na mão e não faz um único raciocínio crítico para avaliar se sua vida está valendo a pena do jeito que estão as coisas.

Onde os Fracos não têm Vez (adaptação para o cinema feita pelos irmãos Coen)


Música

Para ser bem sincero, quando pensei em escrever sobre este tema a primeira coisa que me veio à cabeça foi a questão musical.

Esta talvez seja a primeira geração de jovens desde o advento do Rock’n Roll com mais bunda-mole no mundo da música.

E digo isso pensando tanto nos fãs quanto nos artistas.

Um exemplo vivo disso foi a vinda do Foo Fighters ao Brasil na última semana. Banda ok, música ok, atitude ok. O problema realmente não está aí mesmo, mas sim no tamanho que é atribuído aos caras.

Ora, como já descrito pelo parceiro André Barcinski, o Foo Fighters é um “mal necessário” visto que faz um trabalho bacana ao apoiar bandas menores, produtoras de discos e afins, mas seu som é de uma bunda-molice (acho que inventei um termo) tremenda e não há nada dentro dele que faça da banda uma coisa genial. Só para comparar com o próprio histórico de Mr Grohl o que é o F.F perto do Nirvana?

Além disso, os artistas mais rock’n roll que tenho visto por aí atualmente são Justin Bieber e Miley Cyrus.

Juro!

Não estou brincando, pois estes dois moleques são os únicos que possuem o espírito rebelde, explosivo e “não estou nem aí para a sociedade” no momento. É óbvio que esperávamos que a qualidade da música viesse junto, mas o problema é que o restante do showbiz ou mesmo da cena alternativa não dá pistas de que isso irá mudar.

Há muita coisa boa por aí como a trupe do Arcade Fire, bandas ótimas da cena indie americana ou mesmo os mais antigos como Nick Cave, Mark Lanegan ou o renascido David Bowie, mas e a galera nova?

Onde está aquele rock anárquico do Punk dos anos 70 ou a coragem de gente como Jerry Lee Lewis. Não vejo por aí nada parecido com o Grunge dos 90 ou o virtuosismo com conteúdo de Led Zepellin e Pink Floyd.

Reviro tudo por aí para achar um The Cramps ou um Fugazi, mas é difícil.

E isso se reflete no público ou o público se reflete no som das bandas.

Mesmo assim, é claro que há gente com talento e com punch para tanto, mas ninguém está afim de dar uma chance para esse tipo de artista. E os jovens são desinteressados demais para ir atrás de coisa nova e diferente. E bandas como Parquet Courts ou caras como Ty Seagal não chegam no grande público.

Não vou falar do cenário brasileiro, pois aí a coisa fica mais triste e o texto é capaz de não acabar por conta de minhas lágrimas.

O que importa é que o público está preguiçoso, a juventude não está nem aí para nada e só se importa em demonstrar o quanto é bela e merece mais que os outros.

E questão não é mais de saber mais, informar-se, criar ou subverter o que está estabelecido. O que realmente se mostra empolgante para essa galera jovem é ter, ter e ter.

É uma época de selfies, de ostentação e consumismo. E não há uma gama considerável de meninos e meninas que queiram se opor a isso.

E se há eles não estão se pronunciando. E isso é triste!

Abaixo, só para ilustrar, veja o vídeo de um trecho da apresentação dos Ramones em São Paulo em 1992:

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